Há dias em que acordo terrivelmente desconfortável. Uma sensação que não se mostra, que não se submete às clarezas - ainda que esquivas - das palavras. Está ali, eu sei: é, ao mesmo tempo, eu e outro. Uma causa solitária que não se deixa aplacar, que se adere e se funde aos tecidos e intestinos quase me fazendo acreditar que o estranho sou eu, não ele, o terrivel estrangeiro que me mostra a cara em certas manhãs. Pareço estranho? Está ali, eu sei, mas ele não se deixa dizer, não assim, dissimuladamente, como gosto de fazer, via metáforas ou eufemismos; se não pode estar morto ou vivo, menos ainda estará a sete palmos do chão.
Prova de sua intransigência é o modo como reage às palavras, como se irrita ao ler tecidos e intestinos, como se dissesse “isso não sou eu, coisa feia são os intestinos e os tecidos”. Cobra-me clareza, diz que a estranheza é impalpável, que o lirismo é um recurso doce, mas covarde: “As palavras são vazias, opacas, nada dizem”, é o que ele diz. Respondo, é um teste, contra-argumentando com um silêncio devastador. O estranhamento recua ao perceber minha falta de palavras, quase se cala ao ver a recusa de minha caneta em falar. Sentamos quietos, parecemos mortos, pois vamos ao encontro um do outro, a conclusão dele já é minha; as metáforas que não o convencem tampouco me convencem. Dormimos, é do interesse de ambos o silêncio, ao menos até que se achem melhores palavras, que nunca serão as melhores por serem sempre metáforas, já é quase uma máxima, que há pouco sequer me pertencia.
Por um momento quase deixamos de viver, um impreciso espaço de tempo em que nada foi dito, nem pensado, nem escrito. Quase, pois o que se move sob a pele, mesmo sem ser dito, ainda se move. Um estranhamento que já se manifesta mais brandamente, uma criança contrariada, não há mais nada a reclamar e ele não pode argumentar contra minha respiração: Agora é ele quem protesta, quer ser dito, ainda que de modo impreciso. Pensa que não pode viver sem vazão, ainda que o desconforto se transforme em borboletas, que a ânsia de vômito vire ranhura, que o indizível vire desassossego. Mas agora sou eu que não quero dizê-lo, não quero ser escravo e, momentaneamente, abstenho-me de nomear. Genuinamente me movo, e isto quase me basta. Quase.
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