Assalta-me uma vontade incontrolável de sair de casa. Não sei bem a razão, mas preciso de um motivo, é um tanto descabido sair do conforto do lar sem ter motivo algum. Em frente ao espelho, já quase pronto, é que encontro a justificativa: falta-me tudo em casa, principalmente pão, leite e ovos. Não me detenho muito na roupa, não tenho muitas, mas as que tenho me bastam, aliás, se for pensar bem, até me sobram. Não esqueço de vestir os óculos escuros e quando já estou prestes a trancar a porta é que vejo a montanha de pães descansando sobre a fruteira. Lembro também que sou alérgico a leite e derivados e que ovos me deixam o estômago desconfortável. Talvez tenha esquecido, confundido falta com sobra, sempre me acontece dessas, mas nisso já estou na rua, a meio caminho da padaria, de tênis, calça jeans e camiseta de manga curta. Os óculos me deixam mais tranqüilo, devo parecer mais decidido àqueles que me vêem, ou assim fantasio, é uma suposição com base no tamanho das lentes, quanto maiores, mais segurança. As minhas, por exemplo, são enormes. Escondem quase todo meu rosto, exceto a boca e os orifícios do nariz. Pareço mais seguro metido nelas, mas ainda assim pressinto que algo me denuncia. Chego a desconfiar de que eles também reconhecem minha falta de coerência, que presumem uma lista de compras desnecessária. Por um momento fantasio que me acusam de esbanjador. Não seria uma acusação injusta, mas não sei bem em que parte do meu corpo esse esbanjamento se deixa transparecer. Suponho que seja o modo desconjuntado como balanço os braços ou como dobro o pescoço antes de atravessar a rua; não sei, sinto-me vigiado.
Controlo um pouco melhor meus movimentos, forjo uma sincronia que não existe. Atravesso a rua sem olhar para os lados, acho que já não me vêem. Nem se quisessem teriam como saber que agora é o meu dedão do pé que se contorce dentro do tênis: há uma meia e uma camada de couro que o protegem. Está tenso e contraído, e logo entendo que é em razão de eu também estar tenso e contraído. Não há mais nada a aprumar, aparentemente estou todo alinhado (à exceção do dedo do pé, que não podem ver) e acabo por me persuadir de que é tudo ao contrário, que não me vêem e que pouco lhes importa o estado de nervos do meu dedão. Tento dissimular minha frustração de não ser visto, felizmente meus olhos não me denunciam, assim como não denunciam aqueles que também se escondem sob as lentas.
Ainda assim entro na padaria desnorteado, não entendo muito bem o que vim fazer ali, nem por qual motivo saí de casa: sobra-me o pão, o presunto, o bolo. Reconheço que há dias venho fazendo essa rotina, talvez questão de anos: Paro em frente ao balcão e fico outra vez envergonhado ao reconhecer que não precisaria comprar nada, que os alimentos estragam lá em casa, mas temo frustrá-la, a moça que me oferece os produtos maquinalmente, escondida sob um bonezinho e uma touca. Digo o que venho dizendo há dias (ou anos): 300 gramas de presunto, 300 de queijo e uns 10 pães franceses. É muito presunto e muito queijo, alimentariam uma família durante uma semana e é justamente isso que gosto de deixar transparecer, não sei se a mim ou a ela, à moça que me atende. Agrada-me dissimular minha falta de companhia, não obstante a indiferença dela. Já experimentei trocar o pedido, pedir mais e menos, mas recebo sempre a mesma resposta, que não é ela quem me dá, mas o texto do adesivo que envolve o pacote de frios: obrigado e volte sempre. Eu é que agradeço, balançando a cabeça. Devo parecer um otário com esses óculos escuros dentro da padaria, respondendo a um agradecimento que não foi dito por ninguém. Ela me olha, não a moça de boné, mas a do caixa, e diz exatamente o que o papel já me havia dito: obrigado e volte sempre. Sei que voltarei, não em função dos ditos do papel ou da caixa, tampouco da moça que me alcança o presunto como quem presta um favor. Aliás, nem sei por que me incomoda tanto a falta de atenção daquela moça, pois sua touca e seu boné não me deixam presumir beleza alguma naquele corpo. Obviamente que a pressuponho mais bela do que de fato é, do que de fato seria se não vestisse um boné e uma touca ridículos. E suponho que assim presumo principalmente porque ela não me da atenção. De fato ninguém me da atenção, mas não quero parecer um coitado, muito menos agora, a cinqüenta metros de casa.
Aprumo-me, levanto o rosto, finjo segurança, jogo o ombro para trás, para parecer mais forte. Abro a porta do prédio, ajudo uma velha senhora a subir até o terceiro andar. Quase a convido para tomar um chá, mas lembro que chá é coisa de gente velha, e, afinal, ela também veste óculos escuros. Presumo que está triste, mas vejo que a tristeza é minha, coisa das lentes escuras daqui. Entro em casa, fecho a porta, jogo o presunto e o queijo em cima da mesa, atiro os óculos sobre o sofá. Estamos sós, outra vez.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Muito bom. Dá vontade de ler até o final desde o primeiro parágrafo. Abraço.
ResponderExcluir