terça-feira, 8 de junho de 2010

Da vida alheia

Viu na TV a vaquinha amamentando filhotinhos de cachorro, coisa tão linda e nobre, imagem que a tocou de imediato. Fantasiou voltar no tempo, fazer-se outra vez mais amamentadora. Mas como não produz mais leite, - e lhe faltavam os filhotes de cachorro -, na escassez de recursos, foi até o bazar comprar uma dúzia de vaquinhas de porcelana. Doze mais doze, dias em sequência saindo de casa para comprá-las. Começou como brincadeira, até por fim transformar-se em coisa séria: Uma centena de ruminantes imóveis, todos devidamente nomeados, uma família. Por isso, quando as coisas não estiverem correndo bem, alente-se na tristeza da vida desta velha senhora que vive apenas para dar atenção às suas vaquinhas: Ela dorme e acorda pensando nas vacas; sonha com vacas, por mais estranho que isso possa parecer, ainda que aleguem algo sobre a previsibilidade ou a falta de plasticidade destes quadrúpedes.
Munida de um paninho vagabundo, dia após dia ela acorda, escova os dentes, põe a chaleira no fogo e espalha custosamente manteiga sobre uma fatia de pão. Vai até a sala, liga a televisão, mete um cigarro entre as grades da janela, defumando o jardim abandonado. Enquanto espera o chiado da chaleira, observa as vaquinhas, uma coleção em progressão geométrica que se espalhou pela casa. "Belas vaquinhas", pensa, quase todas em preto e branco, praticamente iguais, culpa da restrição criativa e da preguiça dos artesãos.
Até que a água resmunga e ela tem de retornar à cozinha. Põe duas colheres de café dentro de uma xícara e mais duas de açúcar. Vê sobre a pia a manteiga esquecida, prestes a amolecer, mas prefere deixá-la liquidificar-se a ter de abrir novamente a geladeira em cuja porta descansam, imantados, as fotos de seus filhos. São dois. E toda vez que os vê, ansiosamente relembra de que não são mais crianças. É angustiante olhá-los ali, com feições de garotinho, pois sabe que não são mais os mesmos, que adquiriram independência. Padece todo dia ao mirá-los, mas também se alegra, afinal são seus, são suas duas criancinhas pequenas, indefesas e esquecidas.
Os filhos foram-se, partiram cinco anos antes e nunca mais deram sinal. Ela não gosta de pensar em abandono, tendo predileção por hipóteses menos corrosivas, mais humanitárias: "Trabalham demais. Cidade grande é assim mesmo. São as mesmas criancinhas que se esqueciam de guardar os brinquedos ao terminar a brincadeira." "Não chega a ser esquecimento ou negligência para com a mãe", argumenta, "mas excesso de trabalho, a exploração da mão de obra nordestina". Retorna à janela, puxa outro cigarro do maço querendo abandoná-los, os filhos, sem conseguir, só conseguindo ao lançar mão de outro recurso, ao imaginar o quão mais solitária deve ser a vida de outras mães, daquelas que perderam seus filhos tragicamente, das mães cujos pequeninos morrem de fome, uma mazela alheia que a reconforta. O segundo cigarro é consumido pelo vento. O terceiro também. Queima um cigarro atrás do outro, planejando as tarefas de seu dia, uma amamentação que se restringe à tarefa de lustrar superfícies pretas e brancas, pretas e brancas. Viveu para os filhos, agora viverá para as vaquinhas.

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