quinta-feira, 17 de junho de 2010

Do despojamento

Até que sobreveio ao silêncio a pergunta:
- Acredita mesmo nisso?
Foi a questão honesta que a moça, atirada a um canto da sala, me fez.
- Sim. Respondi
Resposta que se arremessou de imediato, vazou, se antecipando à reflexão.
- Por um momento cheguei a cogitar que não acreditasse -, ela continuou, camuflada na penumbra, intercalando a voz ao crepitar da madeira.
Bendita lareira, pensei.

Então refleti e fiquei com vontade de dizer-lhe que não sabia, que não estava convicto de crer mesmo naquilo, mas não tive coragem de me pronunciar. Não queria parecer frágil, a hesitação não soa bem aos olhos femininos.

- Pois saiba que acredito -, eu disse, mesmo sabendo que o movimento interno rumava a outros lados.

Mas sem saber direito a razão, tão logo terminei de dizer, exauri-me. Cansado da disciplina resolvi me despir. Retirar-me de um lado costumeiro, abandonar enfim a pseudo-convicção que dormia há fartos anos ao meu lado. Resolvi pôr minha cara a tapa, acusar minha indecisão em voz alta.

- Talvez tenha razão, não sei se acredito nisso -, eu disse, com a voz embargada.

Confessei-me, era chegada a hora.

- Honestamente, não sei. - falei, replicando a minha própria fala, avançando na dúvida.

E, imediatamente, um ardor furioso me percorreu o corpo. Imagino que eram os ardores da fala e do gesto, desconforto que não se faz ver quando o silêncio reina.


- É sério, não sei. Nunca soube acreditar em nada. O que falo não tem valor algum.
- E a militância, o apoio aos pobres, a luta pela liberdade de expressão? Disse ela, curiosa, mas não a ponto de franzir o cenho.
- Não sei se acredito.
- E a história de respeitar a opinião alheia, de ser liberal, de bancar o compreensivo?
- Não sei.
- E a reencarnação?
- Não sei.
- E a fidelidade?
- Nunca soube.
- A música clássica, as roupas extravagantes, os perfumes cítricos?
- Nada.

Ela, inquisidora, me arrancara de mim mesmo. Nunca estive frente a frente com o nada, mas deve ser isso, o nada é o não saber dizer. O nada e a morte se igualam na falta de palavras. Nu. Louco de pedra em mostrar-me. E mesmo nu, não cobrei semelhante
despojamento por parte dela. Não pedi resposta nem sinceridade, sem exigências ou réplicas. Nu, nada, o copo de vinho na mão esquerda, escorado na barriga coberta pela blusa, oscilando ao ritmo da respiração.
- Que te parece?
Disse-me ela mudando de assunto, ao apontar uma sombra recortada na parede, uma projeção negra de seus longos dedos. A brincadeira infantil de, com o jogo de luz e sombra, produzir desenhos.
- Um cachorro -, respondi de pronto.
- E o que te lembram os cachorros?
- A infância.
- E o que te lembra a infância?
- O nada.
- O nada -, disse-me, erguendo seu copo, acusando também a sua infância e o seu desnudamento, num ato puro e simples de cumplicidade, como fazem as crianças, que compartilham uma folha de grama como símbolo de amizade.

E nisso rimos, e retiramos naturalmente a roupa que protegia a pele. Que adiantaria proteger qualquer coisa, se o interior estava exposto?
Rimos de uma piada que se esqueceu de vir, do fecho do sutiã que não se deixava abrir, de uma lenha-fagulha que estourou e veio deitar-se ao nosso lado. Um pedaço incadescente cuja presença não nos incomodou, pois havíamos levantado, abandonado a sala e ido até a cama, sendo eu o cavalheiro que a retirou do chão e a colocou sobre os braços. Um homem nu, com o peso de uma mulher e da incerteza sobre os braços.

Estávamos nus e compartilhávamos e derramávamos vinho sobre o lençol impecavelmente branco. Rolávamos sobre o vinho e sobre o nada, sem expressões de espanto, sem recuos forjados ou falso pudor. Girávamos no carrossel da morte e do não saber, deixando para trás o conjunto de invencionices, a militância descabida e o desejo imperioso de gritar em voz alta tudo que não era nosso, mas que sempre fizéramos questão de grudar em nosso corpo.

- O nada, o nada! -, berramos, quando o orgasmo nos pegou pelos pés.

Nenhum comentário:

Postar um comentário