O elefante se confunde, não consegue nominar as coisas que pouco sente. Se conseguisse, teria o tudo, a eternidade em pedacinhos de segundo e de pele e de voz, no dito para sempre paralisado. Ele diria, e estaria ali, e duraria para todo o sempre, como mágica, como os aneis que saem dos dedos mas jamais desaparecem; o ouro derrete e vira outro círculo, outra história que circunda outra pele. Mas felicidade não congela, é instante, um sorriso, uma brecha, um espasmo, um giro, uma valsa dos elefantes dançarinos, que nunca param de rodar. Pisam nos pés e correm sem olhar e procuram desesperadamente parceiros, a valsa, o futuro, a rapidez, correm sempre adiante e saem do salão, há algo inconveniente, uma bateção de abelhas estomacais.
O retorno da música, o pisão nos pés, a tromba estorvando o movimento. O paquiderme se agita, busca a liberdade e a cumplicidade, percorrendo o deserto na companhia de uma tromba, e só resta a tromba. Busca a liberdade e o sorriso e o anel e a felicidade, tudo no mesmo instante, o instante, o congelamento. E balança e balança, e não suporta nem o anel, nem o instante, nem o congelamento; ele não comporta a própria ginga, não entende a sua descompostura, a anca larga em desalinho com o restante do corpo. Vem de dentro, terá que se despir, reestruturar o esqueleto, livrar-se, de fora para dentro, das cascas de uma cebola. Até que pára, ninguém o persegue, o zunido é inclemente. O inominável. A dança, a dança. Cadê o parceiro? O elefante se acalma, tira a camisa, a camiseta e tudo mais que o disfarça. Mas ainda assim algo o fustiga, o sol abrasivo do deserto, a carne, como o charque, exposta aos intempéries. Arranca a pele, destitui-se das rugosidades e vilosidades, da pata grande, do senso persecutório que o acompanhava na corrida. Esconde-se no buraco. Tira o relógio, o anel, o ouro, o círculo que virará outro círculo, também de ouro. Não estava nos planos do criador, não estava.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
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