quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Dos filhos de Narciso
Vai que um dia, no desencontro das línguas, o mistério da comunhão dos seres seja desvendado. Se não for, não será por falta de tentativas. A unha lasciva treinada a repetir, a percorrer a pele como um cachorro condicionado, desenhando na carne rios paralelos, nervuras de folhas que apostam corridas solitárias e sobem e descem, da nuca ao ventre, sem nunca convergirem, sem jamais desaguarem na primeira pessoa do plural do oceano nós. Filhos de Narciso, freneticamente em busca da plenitude do rei sol. Onde está? Supostamente escondida na umidade das cavernas escorregadias e aconchegantes, no bico do seio que se intumesce apenas uma vez, pois na segunda já será outro. A redenção nunca dorme ao lado; está sempre em outro colchão. O mistério que não está dito, que não pode ser achado, e que por isso procuram ao trocar de bocas e leitos fartos, como se o dito estivesse em língua alheia, em alguma arcada dentária que ostenta o poder de revelar o segredo da aparição das Fátimas e Marias, que informaria ao homem que a vida vai além de um álbum de figurinhas, e que existir transcende o ímpeto de colecionar olhos, peito, coxa e coração.
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